sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sobre o trabalho decente

Recentemente a Fundação Seade publicou o resultado de um estudo conjunto com o Dieese sobre a situação do negro no mercado de trabalho da Região Metropolitana de São Paulo que aponta diferenças de salários para o exercício das mesmas funções em comparação com os brancos.
Em 2010, a diferença de rendimento médio por hora entre negros e brancos era de 60,4%. Da mesma forma a taxa de desemprego era ligeiramente maior entre os negros (14% contra 10,9%) e os setores em que proporcionalmente havia um maior número de negros ocupados eram aqueles de menor remuneração e condições mais precárias de trabalho, como a construção civil e o serviço doméstico.
Situações como essa e outras como a diferença salarial e de oportunidades que existe entre homens e mulheres, trabalho forçado e trabalho infantil, estão entre aquelas tipificadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como contrárias ao conceito de trabalho e emprego decente.
Ao aceitarmos esse termo estamos automaticamente concordando com a existência de funções ou ocupações consideradas indecentes. De fato, não muito distante de sua residência talvez você não saiba mas pode estar perto de pessoas vivendo em regime de trabalho semelhante ao de escravidão, quer esteja em uma metrópole desenvolvida ou num ponto remoto da área rural.
Indecente pode ser o trabalho de alguém submetido a condições insalubres ou que exerce alguma atividade e recebe por conta dela quantia insuficiente para o seu sustento.
Pelo censo de 2010, mais da metade (32,2 milhões) dos domicílios brasileiros são ocupados por famílias que sobrevivem com menos de um mínimo mensal. Pior ainda, em 15,8 milhões de domicílios existem famílias sobrevivendo com até meio-salário mínimo de renda mensal e, em 2,4 milhões, sem rendimento algum.
Entre essas famílias deve haver menores de 8 a 10 anos, com idade inferior a 16 anos, a partir da qual, pela Constituição, é permitido o emprego em atividades remuneradas, exercendo alguma função insalubre, com remuneração inadequada, fora dos bancos escolares, empurrados pela situação econômica precária a colaborar com suas famílias para sobreviver.
Questões como essas foram alvo de análise de conferências estaduais realizas em 20 dos 26 estados brasileiros. Em São Paulo, a 1ª Conferência Estadual de Emprego e Trabalho Decente se deu nos dias 24 e 25 de novembro passado e reuniu mais de 600 pessoas, entre delegados representantes de centrais sindicais, federações patronais, governo e sociedade civil. As propostas aprovadas serão levadas à Conferência Nacional, que, em maio do próximo ano, será promovida em Brasília.
Em São Paulo, a iniciativa será transformada em um agenda estadual de emprego e trabalho decente que será concretizada por uma comissão permanente, constituída pelos mesmos segmentos (empresários, trabalhadores e governo), que organizaram a conferência estadual.
O governo estuda ainda uma política especíifica para o Estado de São Paulo. Tudo isso como tentativa de reduzir os índices da desigualdade social brasileira e amenizar os prejuízos a que está submetida a maioria da nossa população
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Conferência Estadual de Emprego e Trabalho Decente de São Paulo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

!ª Conferência Estadual de Emprego e Trabalho Decente


Faltam 12 dias úteis para a 1ª Conferência Estadual de Emprego e Trabalho Decente. A abertura oficial será na noite de 24/11, às 19h, no Memorial da América Latina, São Paulo, com a ainda não confirmada presença do governador Geraldo Alckmin e do ministro do Trabalho Carlos Lupi, seguida de coquetel.
Os trabalhos começam mesmo no dia seguinte, a partir das 9h, presididos pelo secretário de Emprego e Relações do Trabalho, Davi Zaia. Falam nesse dia, o coordenador da Conferência Nacional, Mario Barbosa,o representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o próprio secretário estadual Davi Zaia.
Em seguida, os participantes, divididos em cinco grupos temáticos começam a debater o temário da conferência para fecharem no meio da tarde com a apreciação das propostas em plenário.
Entre os temas abordados está o incentivo ao emprego para jovens, mulheres e população negra, a inclusão de pessoas com deficiências, a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, a erracadição do trabalho forçado e do trabalho infantil.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Fap-SP promove ciclo de debates

Participam o ex-ministro Mendonça

de Barros, economista Daniel Ribeiro e historiador Marco Antonio Villa



A Fundação Astrojildo Pereira - SP promove nos dias 7 e 9 de novembro, em São Paulo e São Carlos, um ciclo de debates sobre Economia e Política. No dia 7 de novembro, a partir das 20h, tendo como convidados o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros e o economista-chefe do Credit Suisse Hedging-Griffo, Daniel Ribeiro, o debate "Economia Brasileira: Conjuntura e Perspectivas", no Hotel Pergamon (Rua Frei Caneca, 70), em São Paulo.
O debate "Mudar o Brasil: Tarefa dos Democratas" traz o historiador Marco Antonio Villa ao auditório do Centro do Professorado Paulista, de São Carlos, no dia 9 de novembro, às 19h. O CPP-São Carlos está localizado à rua Lúcio Rodrigues, 11, Vila Prado.
Os debates fazem parte da programação da representação de São Paulo da FAP sobre conjunturas política e econômica brasileira


Economia Brasileira: Conjuntura e Perspectivas

A crise na economia mundial, que se arrasta desde 2008, teve impactos importantes nos países emergentes, com destaque para a situação do Brasil que vem apresentando aumento nos índices de inflação e queda nas taxas de crescimento.
Problemas estruturais graves, envolvendo a precariedade dos nossos sistemas de saúde e educação, transportes, portos e aeroportos, meio ambiente e uma série de outros fatores que afetam direta ou indiretamente a vida dos brasileiros, estão a exigir uma acurada análise, que coloque em perspectiva as possibilidades de sua superação.

Mudar o Brasil: tarefa dos Democratas

Com a lucidez que lhe é peculiar, o historiador Marco Antonio Villa analisa a conjuntura política brasileira de forma crítica e lúcida. Mestre em Sociologia (Universidade de São Paulo, 1989) e doutor em História Social (Universidade de São Paulo, 1993), Villa é professor de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Um debate imprescindível para quem acredita que é possível mudar esse País.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Outras esquinas





De volta às esquinas





Coitado do torcedor palmeirense


Se você é torcedor palmeirense como eu (coitado) e acompanha o noticiário de nosso time pelos jornais, deve ter notado que ele está ocupado apenas com as crises que envolvem o Palmeiras e não com o futebol. Nenhuma contratação de destaque, nenhum jogador que se sobressai, o Palmeiras só é notícia quando deixa o outro time empatar com dois a mais em campo (vergonha), mas é a crise que prevalece. A última notícia sobre o time na Folha, fala sobre os R$ 4 milhões que o time desembolsou por estar sem estádio. Até a conta d'água (R$ 120 mil/mês) no canteiro de obra o Palmeiras está pagando, sendo que o rombo financeiro do clube passa de R$ 25 milhões. Tá certo o Marcos que diz que o que sempre atrapalhou o Palmeiras é a política(gem). Politicagem e má administração somados influenciam o futebol que faz campanha sofrível e já caiu para a segundona, uma vez (e felizmente voltou).

domingo, 28 de agosto de 2011

Tome um bom conselho: se voar esteja seguro de onde irá parar


Numa noite dessas me vi levitando e, como a janela estava aberta, sai para dar um passeio. Afastei-me de casa, passei rasando por outras, mas logo tive que subir mais para desviar dos edifícios que se aproximavam. Tudo era muito bonito visto lá de cima, as luzes da cidade, os carros transitando, os edifícios e as casas. Após alguns minutos de vôo me vi sobrevoando o centro da cidade. Nesse momento fui perdendo altura e estacionei na calçada. Pelo inusitado da aventura não senti frio quando voava. Mas uma vez no chão, percebi que estava tremendo, ainda mais porque vestia apenas cueca e camiseta, em pleno inverno. Senti uma vontade tremenda de voltar a levitar, mas sem sucesso permaneci no chão. Embora ninguém reparasse em mim, me senti envergonhado por estar naquela situação e busquei algo com que pudesse me cobrir. Havia muito papelão e jornais no chão e ao me aproximar para pegar um pouco percebi que algo se mexia por baixo deles. Eram pessoas, uma quantidade enorme delas que dormia em longas filas. O estranho é que dias antes eu passei por ali, como um cidadão qualquer, e as pessoas que vi eram outras, a maioria bem vestida que passava apressada de um lado ao outro, preocupada com seus afazeres, assim como eu. Na calçada àquela hora percebi que a população do centro da cidade muda. São outros que ocupam as calçadas, cada um em seu canto, para passar a noite. São dezenas, quando não centenas, de desabrigados que também não se dão conta uns dos outros. Como aquele outro povo, que a luz do dia só pensa em trabalhar, eles se preocupam em sobreviver por mais uma noite. É outro povo misturado ao lixo produzido durante o dia. O mesmo lixo que será retirado cedo, nos primeiros raios de luz natural, pela faxina do serviço público que irá limpar todos os vestígios da noite anterior. Ninguém saberá que esses habitantes noturnos existem, haverá apenas os trabalhadores de escritórios que os substituem. Fui à busca de algo para me cobrir. Revirei o lixo, peguei alguns plásticos e improvisei uma vestimenta. Sem poder voar, me aninhei em um canto para também sobreviver àquela noite que prometia ser impiedosa. Tentei, mas não conseguia dormir, apesar do sono. Bateu um desespero, o frio castigava sem piedade. Foi quando, lá pelas tantas, senti aliviado que voltava a levitar. Tratei de sair logo dali, tomei o rumo de casa e pouco tempo depois estava em meu lar novamente. Deitei-me, puxei o lençol e o cobertor. Gratificado por estar ali, me preparei para dormir, mas algo me incomodava. Perguntei-me onde andaria aquele povo que eu vi nas ruas aos montes. Eu nunca os tinha visto antes, exceto por alguns que a gente esbarra de vez em quando pela cidade. Como muita gente, acabado o trabalho eu voltava para casa e no conforto do lar assistia às novelas e aos telejornais. Foi pensando assim que o sono me pegou aos poucos, mas a sensação de incômodo permanecia, até que tomei uma decisão:
- Sempre fechar as janelas à noite para ter certeza de estar bem seguro. Nunca se sabe se iremos levitar novamente.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Das esquinas por onde andei 3

Ensaio: fotos por celular


Das esquinas por onde andei 2

Ensaio: fotos por celular



Das esquinas por onde andei

Ensaio: fotos por celular


Documento retrata memória da imprensa alternativa sob o autoritarismo


A noite da última segunda-feira foi de lançamento da coleção de depoimentos “Protagonistas desta História” , iniciativa do Instituto Vladimir Herzog e Petrobrás. Trata-se de um conjunto de CDs e textos com depoimentos de participantes da imprensa de combate à ditadura militar (1964-1985).
A cerimônia reuniu cerca de uma centena de pessoas no Memorial da Resistência de São Paulo, o antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), notabilizado pela ferrenha perseguição aos opositores do regime.
Ivo, filho de Vlado, como era conhecido o jornalista, está à frente do Instituto que homenageia seu pai. Ele lembrou que naquele dia, se Vlado estivesse vivo, completaria 74 anos.
Entre os 60 depoimentos reunidos no documento, estão os de Aguinaldo Silva, Audálio Dantas, Elifas Andreato, Fernando Morais, Franklin Martins, Gildo Marçal Brandão, José Hamilton Ribeiro, José Luiz Del Roio, Juca Kfouri, Raimundo Pereira, Fernando Pacheco Jordão, entre muitos outros.
O cartunista Miguel Paiva, autor da arte de um cartaz pela anistia política, campanha de 1979, assinou uma cópia e a entregou à Clarisse Herzog, viúva de Vlado. Durante a cerimônia, foi exibido um vídeo com alguns dos depoimentos.
Participaram do evento, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, a secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania, Eloisa de Souza Arruda, e o ex-ministro da Justiça, José Gregori, atual secretário especial de Direitos Humanos de São Paulo. A secretária Souza Arruda anunciou o pagamento de indenizações pelo governo estadual a 158 ex-presos políticos e seus familiares.











quinta-feira, 16 de junho de 2011

Para que sigilo?

O jornalista Janio de Freitas escreve na Folha sobre o desnecessário sigilo sobre fatos que são públicos e até motivo de livros didáticos nos países vizinhos.O que está por trás da iniciativa de manter sigilo por prazo indefinido de documentos históricos é a tendência de seus defensores de preservar o autoritarismo.

Sigilo sem segredo



Fatos que não podem ser conhecidos pelos brasileiros aparecem até em livros escolares de países vizinhos


SOB O NOME DE sigilo de documentos, o que se pratica e muitos querem manter é, em verdade, o silêncio sobre fatos.
O movimento surgido no Senado com tal propósito, por iniciativa de Fernando Collor e engrossado a partir do presidente da Casa, José Sarney, já obteve o êxito inicial, e importante, de despachar para o futuro incerto o projeto do governo Lula que terminaria com o sigilo infinito, para determinados documentos, e atenuaria o prazo de resguardo de outros. Na Câmara, o projeto foi aprovado sem dificuldades.
A ministra Ideli Salvatti contestou ontem as notícias de que o atual governo recuou no apoio ao projeto original, defendendo ainda, portanto, que apenas assuntos de fronteiras, de segurança nacional e de relações internacionais sejam sujeitos a 25 anos de sigilo e passíveis de renovação, uma só, pelo mesmo prazo. A rigor, já é muito, com a presença nesse bolo de registros relativos, por exemplo, à guerra com o Paraguai e aos métodos de aumento do território brasileiro, por exemplo, com a área do Acre.
A obsessão pelos segredos é tão obsoleta que, caso se imponha no presente, não resistirá ao futuro já perceptível. Nesse meio tempo, o que de melhor consegue é criar mais fatos comprometedores e contradições grotescas.
Na história da imprensa consta, por exemplo, um episódio esquecido que ilustra bem o motivo dos segredos oficiais ainda impenetráveis. Jornalista audaz, celebrizado por suas denúncias da ação de companhias petrolíferas (a Esso em especial) contra o projeto brasileiro do petróleo, Gondim da Fonseca acreditou na ideia generalizada de que militares vindos da guerra na Itália se haviam tornado paladinos da democracia. Razão que os levou a derrubar a ditadura de Getúlio, da qual as Forças Armadas foram os pilares.
Com tal ânimo, Gondim entregou-se à pesquisa de mais temas silenciados. E, entre eles, publicou no poderoso "Correio da Manhã" uma narrativa que comprometia Caxias em problemas, não só militares, no comando das forças brasileiras. No mesmo dia da publicação, Gondim da Fonseca sumiu. Paulo Bittencourt, dono do jornal, a quem devo a narrativa, pôs-se em campo -mas nada, nenhuma pista. Foram sete dias de movimentação, conversas, recursos, presumidas ações do governo, até que Gondim fosse encontrado. Em um quartel do Exército. Sem ser contestado, fora apanhado não sabia para que fim, por buscar documentos sigilosos, até contábeis, e publicar texto inconveniente à imagem do patrono do Exército.
Não necessariamente quanto a Caxias e à guerra com o Paraguai, mas que sentido têm sigilos assim, infinitos, senão o de camuflar e esconder a história brasileira, por seus fatos e figuras, para preservar orgulhos e celebrações tantos deles dirigidos a meras fantasias históricas? Nem os aspectos da guerra propriamente, escamoteados à história oficialesca do Brasil, justificam o seu sigilo a pretexto de evitar traumatismos às relações com o Paraguai: os paraguaios sabem, escrevem e leem o que aconteceu ao seu país e ao seu povo. Quem não sabe são os brasileiros.
Os assuntos de formação territorial são o principal fundamento da oposição, no Senado, a prazos para o sigilo de determinados documentos. No Itamaraty, a resistência é absoluta. Os dois focos são movidos pelo temor de que os documentos até hoje sigilosos levem a desentendimentos com vizinhos, mais que todos a Bolívia. É outro caso, porém, em que não haverá revelação alguma a esses países. O que não pode ser conhecido dos brasileiros está até em livros escolares de lá.
Em uma de suas primeiras referências às negociações que pretendia com o Brasil, Evo Morales citou, como uma das prioridades, as transações passadas e as pendências de territórios bolivianos com o Brasil. Não pode haver melhor indicação de que os bolivianos sabem o que e como se deram certos abrasileiramentos geográficos. E têm esse trunfo, enquanto o Brasil não quiser enfrentar o assunto.
Se a revelação de processos aplicados por Rio Branco atingiria os conceitos histórico e atual da diplomacia brasileira e talvez, sobretudo, a imagem do patrono do Itamaraty, está aí uma contradição. Já que os feitos e modos de Rio Branco não podem ser revelados sem consequências penosas, não caberia tê-lo como patrono da diplomacia brasileira, e até dar seu nome à escola de formação dos diplomatas, o Instituto Rio Branco.
Lula contornou a prioridade incômoda de Evo Morales com o argumento de que o assunto, naquela altura, agiria contra as muitas ajudas que seu governo pretendia proporcionar à Bolívia e a seu novo governo. Mas todos esses assuntos são apenas questão de tempo, e nem tanto tempo.








quarta-feira, 15 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nem tudo é permitido


O caso Palocci não deve e não pode parar por aqui. A investigação em relação ao ex-ministro deve seguir até a população se certificar da sua inocência ou não. O combate à impunidade depende da apuração até o fim dos desvios de quem ocupa cargos de alta responsabilidade na administração pública. Com a demissão do ministro corre-se o risco de ficar tudo como está. Isso é ruim para a democracia. Se não parece que "tudo é permitido", como diria o personagem Ivan Karamazov, de Fiodor Dostoiévski "Se Deus não existe e a alma é morta, tudo é permitido" (essa frase me persegue). A civilização construiu padrões de ética e de conduta, que até Deus dispensam (sacrilégio). Se não as seguimos, vira barbárie. É muito disso que vimos no cenário brasileiro: grandes violações estimulando as médias e pequenas e assim por diante ou vice-versa, parece (ou está) tudo liberado e sem controle. Ir até o fim na apuração das denúncias é necessário.
Leia a esse propósito a ooluna de Dora Kramer, no Estadão.









sexta-feira, 3 de junho de 2011

O show de Alice Cooper

Fomos, eu, Pietro, Enrico (meus filhos) e Lucas, o popular Coisinha (amigo do Enrico), ver o show do Alice Cooper, que continua fazendo um "somzaço" beirando aos 70 anos de idade.
Em 1970, auge do sucesso de Alice, eu tinha 15 anos, idade do meu filho caçula. A música mais "bombada" era "School's Out", espécie de hino adolescente da época, que ainda ecoa no coração da moçada que curte rock'roll.
Não esperava encontrar tanta gente no show. Foi uma verdadeira epopéia chegar ao Credicard Hall. Sem senso de direção algum me perdi várias vezes antes de chegar. Consegui me perder com ou graças ao "GPS". Como estava inseguro da rota mais curta apelei para o aparelho que me levou quase para fora da cidade. Só encontrei o destino, depois de dar um safanão no aparelho e decidir seguir por mim mesmo.
Chegamos em cima da hora e os estacionamentos estavam lotados. Afinal, tudo deu certo. Foi um verdadeiro show com as encenações já conhecidas e com um som de altíssima qualidade. Destaque para o baterista Eric Singer, entre outros músicos de ótima qualidade.
Assistimos da pista e como sempre acontece, havia uma verdadeira montanha em nossa frente. Um cara de mais de dois metros de altura por dois de largura, que ficou por uns 15 minutos dançando como um ensandecido, até se tocar, como por milagre, que do alto de sua estatura poderia ver melhor que qualquer um.Um sujeito bastante consciente, por sinal, que para não atrapalhar mais foi se postar em outro local.
Também havia dois outros rapazes atrás de nós. Um deles contava ao outro, deficiente visual, todos os lances que aconteciam no palco.
Alice contentou a todos tocando praticamente todos os seus hits e terminando o show com um bis de duas músicas, uma delas uma "Fire" versão de Jimi Hendrix, let me stand next to your fire, e "School's Out".









quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em Sem Patrão, funcionários assumem e recuperam fábricas falidas


A Fundação Astrojildo Pereira, representação de São Paulo, lança no dia 17 de junho, às 19h, na Livraria da Vila, da Alameda Santos, 1731, o livro Sem Patrão – Fábricas e empresas recuperadas por seus trabalhadores, que narra a experiência de operários que assumem a direção de fábricas em situação pré-falimentar na Argentina.
No começo do século, o País passava por uma grave crise econômica e os proprietários resolveram abandonar as fábricas. Os seus funcionários, desempregados, resolvem assumir a direção das empresas e conseguem recuperá-las.
Acompanha o lançamento, um debate com a participação do economista Paul Singer, que escreveu o prefácio do livro, e o jornalista Sergio Ciancagline.
Os debatedores
Sergio Ciancagline é jornalista. Após uma carreira bem–sucedida nos principais jornais argentinos, participou, em 2001, da criação de Lavaca, uma cooperativa de trabalho de jornalistas. Hoje, a Lavaca mantém uma publicação impressa, o jornal MU, uma rádio, uma agência de notícias, e uma editora.
O coletivo organiza ainda oficinas de contra-informação e cursos diversos para jornalistas e profissionais de outras mídias. Além de Sem Patrão, lavaca publicou “O fim do jornalismo e outras boas notícias” e “Geração Cromañon”. Sérgio Ciancagline recebeu por duas vezes o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha, por matérias sobre direitos humanos.
Paul Singer, nascido na Austria, em 1932, chegou ao Brasil com a família em 1940. Estudou economia na Universidade de São Paulo, onde doutorou-se em Sociologia sob a orientação de Florestan Fernandes. Professor na USP até sua exclusão, em 1969, por motivação política.
Trabalhou no CEBRAP e retornou às aulas na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na década de 1970. Foi Secretário de Planejamento na gestão de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo. Desde 2003 é Secretário Nacional de Economia Solidária.





segunda-feira, 30 de maio de 2011

Meu amigoTadeu

Ontem conversamos sobre a entrevista de Fernando Henrique Cardoso, na Folha, de domingo, 29/04/2011. Tadeu a achou excelente (leia na postagem anterior). Meu amigo era muito doido. Experimentou quase todas as drogas quando jovem, incluindo álcool e tabaco. Hoje é o maior careta. Fica sem jeito e não sabe o que responder quando um de seus filhos lhe pergunta se ele já fumou maconha. Bebe socialmente, responde ao médico em todos os check-ups. Sou testemunha. Tadeu só bebe quando acompanhado, embora nunca esteja sozinho. Brincadeira. Ele está mesmo bem moderado e até abandonou o cigarro. Nem mesmo baseado fuma mais. Parou quando achou que estava favorecendo o tráfico, que mantém sobre controle milhares de jovens nas favelas. Soldado do tráfico morre cedo, ainda criança. A própria vida útil do traficante não ultrapassa os 40 anos, argumenta. Tadeu acha que o ex-presidente colocou de maneira lúcida o problema das drogas, quando se posicionou pela descriminalização, mas é mais radical que FHC: defende a legalização. Dessa vez, foi convencido pelos argumentos do ex-presidente, para quem a realidade do País ainda não permite essa medida. Tadeu destacou a parte em que o ex-presidente afirma que a descriminalização fará com que um consumidor dependente passe abertamente a pedir ajuda a um hospital, sem precisar ficar preocupado em ir parar na prisão. Mas, o grande mérito da entrevista, acredita Tadeu, é colocar a questão das drogas no centro da questão e abordá-la de maneira diferente da tradicional, que não resolve o problema. Tadeu falou e disse.E você,qual a sua opinião sobre o tema?








Pega Leve - Entrevista de FHC à Folha de S.Paulo 29-05-2011

Mônica Bergamo/ bergamo@folhasp.com.br/ FHC defende em filme a descriminalização de todas as drogas, o acesso controlado a entorpecentes leves e admite até a plantação caseira de maconha no Brasil como forma de combater o tráfico/ Marlene Bergamo/Folhapress/ Há três anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se juntou a personalidades como os ex-presidentes César Gaviria, da Colômbia, e Ernesto Zedillo, do México, e aos escritores Paulo Coelho e Mario Vargas Lllosa na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. Passou a defender a descriminalização do consumo de entorpecentes. E transformou sua "saga" no filme "Quebrando o Tabu", de Fernando Andrade, que estreia na sexta, 3. Visitou 18 cidades da América Latina, EUA e Europa, foi a bares que vendem maconha, viu pessoas se drogarem nas ruas. Mostrou o documentário às netas de 25 anos -que estavam ansiosas para saber, segundo ele, como defenderiam o trabalho "do avô maluco". FHC falou à coluna. Abaixo, um resumo: Folha - O senhor já tem um histórico com o tema: na campanha para prefeito de São Paulo, em 1985, foi acusado de defender o consumo da maconha. Fernando Henrique Cardoso - Ali foi o uso, pela campanha do Jânio Quadros [que concorria com FHC], de uma entrevista que eu havia dado à revista "Playboy", em que me perguntaram se eu já tinha provado maconha. Eu contei que a única vez que eu vi alguém com maconha foi no bar P. J. Clarke's, em NY. Eu estava com uns primos banqueiros, bastante compostos. Alguém puxou. Achei o cheiro horrível. Me perguntaram: o senhor tragou? Nem sei tragar, nunca traguei nem cigarro. [A resposta de FHC à "Playboy" foi: "Eu dei uma tragada, achei horrível, acho que é porque nem cigarro eu fumo".] E outras drogas? No meu tempo, não tinha esse negócio. Era só lança-perfume no Carnaval. E o senhor cheirou lança? Mas muito pouco. Eu tinha horror dessas coisas. Eu nunca vi cocaína na minha vida. Eu sei que é um pozinho branco, e tal, mas nunca vi. Fui ver gente se drogar agora, na Holanda, fazendo o filme. Claramente, qual é a sua posição sobre as drogas? Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas. Cocaína, heroína? Todas, todas. Uma droga leve, tomada todo dia, faz mal. E uma droga pesada, tomada eventualmente, faz menos mal. Essa distinção é enganosa. Agora, quando eu digo descriminalizar, eu defendo que o consumo não seja mais considerado um crime, que o usuário não passe mais pela polícia, pelo Judiciário e pela cadeia. Mas a sociedade pode manter penas que induzam a pessoa a sair das drogas, frequentando o hospital durante um período, por exemplo, ou fazendo trabalho comunitário. Descriminalizar não é despenalizar. Nem legalizar, dar o direito de se consumir drogas. Os manifestantes da Marcha da Maconha, por exemplo, defendem a legalização, o direito de cada um fumar ou não o seu baseado. Eles defendem não só a legalização, como dizem: "Não faz mal". Eu não digo isso, porque ela faz mal. Agora, não adianta botar o usuário na cadeia. Você vai condená-lo, estigmatizá-lo. E não resolve. O usuário contumaz é um doente. Precisa de tratamento e não de cadeia. Eles podem argumentar: faz mal, mas eu tenho o direito de escolher. Aí é a posição holandesa. Lá você tem o indivíduo como o centro das coisas. Mas a Holanda é um país de formação protestante, capitalista, individualista: "Eu posso decidir por mim. Se eu quiser me matar, eu me mato". Lá, você não tem o nível de violência, de pobreza e de desinformação que tem no Brasil. Legalizar aqui pode significar realmente você alastrar enormemente o uso de drogas, de uma maneira descontrolada. Na Holanda, eles não tentam levar ninguém ao tratamento. Na cultura brasileira, funcionaria mais o modelo adotado por Portugal. Como é em Portugal? Eles descriminalizaram todas as drogas e deram imenso acesso ao tratamento. E como você não tem medo de ir para a cadeia, você procura o hospital. Eles fazem inclusive uma audiência de aconselhamento com o usuário. Portugal está hoje entre os países com a menor expansão do consumo de drogas na Europa Ocidental. Agora, eles combatem o tráfico. O filme diz que nunca existiu um mundo sem drogas. Antropologicamente, é verdade. O que não quer dizer que o mundo seja drogado! Agora, droga zero... Crime zero vai existir? Não vai haver nunca mais adultério? Mesmo no Irã, em que jogam pedra? Mas isso não pode dar o sentido de "então, libera". Se nunca existirá um mundo sem drogas, de que adianta proibí-las e deixá-las, ilegais, sob controle de traficantes? Posso te dizer com franqueza? Vai ter que diminuir o consumo. Como? Motivando, e não prendendo as pessoas. O cigarro foi transformado em um estigma. Não era assim há 20 anos. Tem que tirar o glamour da maconha. Ela pode trazer perturbações graves. Tem que haver campanhas sistemáticas, informação, educação. Os críticos da descriminalização dizem que uma droga leva a outras mais pesadas. Vamos falar sem hipocrisia: o acesso à maconha é fácil no Brasil. E o elo entre a droga leve e a droga pesada é o traficante. Se você não tem acesso regulado, vai para o traficante. E ele te leva da maconha para outras drogas. E como seria esse acesso? Em vários estados americanos, na Europa, há liberdade de produção em pequena quantidade, doméstica. Cada país tem que encontrar o seu caminho. No Brasil, imagina liberar a plantação caseira? Por exemplo. Descriminaliza e deixa alguma experimentação. Eventualmente, plantação caseira, por aí. Outra coisa: em alguns países da Europa, o governo fornece a droga para o dependente, para evitar o tráfico. Na Holanda, não é permitido se drogar na rua. Você tem locais específicos. Isso poderia acontecer no Brasil. Em SP, na cracolândia, o pessoal se droga na rua, à vontade. É melhor se drogar na rua ou ter um local específico? Isso não é liberar, é tratar como saúde pública. Na Holanda "coffee shops" vendem maconha. Eu fui lá. E experimentou? Não, não. Comigo não tem jeito. Eu não beijo sereia. Quer dizer, às vezes, sim. Mas não de drogas [risos]. A produção de maconha é ilegal na Holanda. Os "coffee shops" são solução meia-bomba. É uma coisa meio hipócrita. Debates sobre costumes são sempre interditados no Brasil. A campanha de 2010 mostrou isso, com o aborto. Eu fui contra aquilo. Esses assuntos não são de campanha eleitoral. E, se você não tiver coragem de ficar sozinho, não é um líder. Mas no Brasil tem uma vantagem: a proposta mais avançada no Congresso sobre drogas é do líder do PT, o deputado Paulo Teixeira. Ele esteve na minha casa, com o Tarso Genro [governador do Rio Grande do Sul], discutindo essa questão. Nossa posição é parecida. Uma parte da sociedade vai ser sempre contra, mas não estamos defendendo coisas irresponsáveis. A droga faz mal, eu sou contra o uso da droga, tem que fazer campanha para reduzir o consumo. Agora, a guerra contra ela fracassou. Tá aumentando o consumo, tá tendo um resultado negativo, tá danificando as pessoas e a sociedade. Vamos ver se tem outros caminhos. No filme, não estamos dando receitas, e sim abrindo os olhos. O senhor vai enviar o filme para Dilma Rousseff. A presidente, no entanto, tem se mostrado fechada a discussões sobre o tema das drogas. É o que dizem. Eu não sei. Não ouvi dela nada. Ela está saindo da campanha eleitoral e tal. Agora [rindo], precisa ver a posição do Lula. Álcool faz mais mal que marijuana. As ideias que o senhor declara hoje jamais foram aplicadas ou mesmo defendidas em seu governo. Naquela época, havia uma enorme pressão americana, sobretudo por causa de Colômbia, Peru e Bolívia, que exportavam pasta de coca. E houve uma certa militarização do problema. Os americanos fizeram a ONU aprovar uma convenção com o objetivo de acabar com as drogas. E fizeram muita pressão para o Brasil participar de um entendimento do ponto de vista militar. Nós nos recusamos. Mas houve cooperação. Nós tínhamos que mostrar que não deixamos de combater as drogas. Então criamos a Senad [Secretaria Nacional Antidrogas] com um duplo desafio: como é que diminuímos [as drogas] e como é que não nos amolam com essa questão. Fizemos esforços de erradicação de plantações no quadrilátero da maconha em Pernambuco, por exemplo. Eu acreditava nisso. O problema não era tão violento. Não estava no radar como hoje está. Mas eu confesso que não tinha a posição que hoje eu tenho, porque eu não tinha informação. Meu governo foi isso: ambíguo. FHC DISSE "Eu NUNCA vi cocaína na minha vida. Sei que é um pozinho branco, e tal Vamos falar sem hipocrisia: o acesso à MACONHA é fácil no Brasil.E o elo entre a droga leve e a droga pesada é o TRAFICANTE Em alguns países, o governo FORNECE a droga ao dependente; você tem locais específicos. Isso poderia acontecer no BRASIL"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sem identidade

Naquela manhã foi difĩcil corpo e mente aceitarem qualquer comando. O fim de semana prolongado pelo feriado passara depressa. Era dia de batente e hora de ir ao trabalho. Olhou várias vezes o relógio, até se certificar que era impossível adiar o momento de se levantar da cama. Foi ao banheiro a contragosto e demorou-se cerca de dez minutos na privada, cochilou algumas vezes nesse intervalo. Finalmente, levantou-se e foi para a pia molhar o rosto e escovar os dentes. Voltou ao quarto, fez um alongamento para aliviar as dores nas costas e se vestiu lentamente. Escolheu aleatoriamente a roupa que iria usar, sem se preocupar com as cores que mais combinariam naquela manhã. Foi ao quintal, pegou o jornal, leu o que mais o interessava, com preguiça de fazer o café da manhã seguiu para o trabalho em jejum, no seu velho automóvel. Chegando ao destino, entrou no estacionamento. O funcionário lhe deu o ticket e estranhamente não o comprimentou. Seguiu pela calçada por alguns metros e entrou no edifício onde ficava o escritório em que trabalhava. Passou o crachá pela catracra eletrônica mas não conseguiu destravá-la. O vigia pediu seu nome e número da cédula de identidade, anotou com dificuldade os dados no papel sob a prancheta, abriu a portinhola lateral e o deixou entrar. Quando chegou na sala de trabalho encontrou outra pessoa em seu lugar. Bom dia, respondeu a pessoa sentada à sua frente. Posso ajudar? - Eu que pergunto, você está no meu lugar. - Engano seu. Esse é o meu lugar. - Vamos deixar de brincadeira, eu não te conheço e trabalho aqui há anos. Naquele instante, Regina entrou na sala: - Bom dia, Sergio. - Bom dia, responderam os dois praticamente ao mesmo tempo. - Espera aí, o Sergio sou eu. - Sergio, que brincadeira é essa?, disse Regina, quem é esse? Regina apontava para o homem que estava de pé à sua frente. - Para de brincadeira, Regina, vai dizer que nâo me reconhece, sou eu. - Eu também não sei quem é esse sujeito. Entrou de repente, pensei que fosse um cliente, mas ele começou dizendo que esse lugar era dele. - Vou chamar o segurança, disse Regina. Algum tempo depois, chega o segurança. - Qual é o problema, pergunta ele. - José, não está me reconhecendo? - Eu deveria? - Parem com a brincadeira, todos vocês! Qual é, tá todo mundo doido? Sou o Sergio, vocês me conhecem, sou colega de vocês há anos. - Acalme-se senhor, diz o segurança. - Esse cara entrou aí dizendo que era eu, que o lugar era dele, respondeu o homem que estava sentado. - Mas esse lugar é meu. Quer ver, deixa eu abrir a gaveta, vou mostrar fotos minhas e de minha mãe. Quase derrubou o segurança antes que ele pudesse impedi-lo de chegar à mesa. Não havia foto nenhuma, apenas um crachá com a foto do homem que estava sentado. - Olha não sei quem é você, nem o que tomou, mas já é hora de se retirar. A essa altura, várias pessoas foram atraídas pelo som da discussão, incluindo o diretor. - O que está acontecendo aqui, porque essa gritaria? - É esse cara, chefe, ele chegou aqui, disse que essa era a sua sala e que o meu lugar era o dele. - Desculpe, senhor, mas o que deseja. - Chefe, sou eu, o Sergio! - Ora, você não é o Sergio. A resposta do chefe o deixou atordoado. Saiu da sala correndo, esbarrando nas pessoas, necessitava respirar. Já na rua, foi a um bar, pediu água, tentou se acalmar, por ordem no pensamento. Pediu um café. O balconista era seu amigo. - Silvio, como vai. - Vou bem senhor. - Senhor? Ora, Silvio, corta essa, é o Sergio, que é isso, tá todo mundo louco, o que está acontecendo. - Sinto muito, senhor, mas é a primeira vez que o vejo. Saiu do bar desnorteado, pagou a conta com o pouco dinheiro que tinha. Na mesma rua, ficava a agência do banco onde era correntista. Chegou lá, fez o gesto para pegar a carteira e sacar o cartão de movimentação financeira, mas o bolso estava vazio. Foi até o gerente que na sexta-feira anterior havia lhe concedido um empréstimo. - Nascimento, estou numa situação esquisita, esqueci a carteira em casa, estou com pouco dinheiro no bolso, posso fazer um saque avulso no caixa? - Claro, afinal o senhor é correntista, não é mesmo? - Graças a Deus, Nascimento, você me reconheceu, disse, aliviado. - Reconhecer, não sei, mas se o senhor conhece o meu nome deve ser cliente da agência, embora não esteja lembrado de sua fisionomia. - Já sei, tá todo mundo de sacanagem. Estão todos de acordo. É uma grande combinação. É tudo brincadeira. Tão querendo me sacanear, todos vocês. Vou voltar ao escritório e dizer para todos que conseguiram me enganar e que a brincadeira acabou por aqui. Na entrada do prédio, encontrou com o mesmo vigia que viu pela manhã e com José, o segurança. - Tá bom, vocês me enganaram direitinho, mas agora chega, preciso voltar a trabalhar. - Senhor, isso já passou dos limites, vamos circulando, não sei como entrou no prédio antes, mas agora sou obrigado a retirá-lo do recinto. - Eu entrei como faço todas as manhãs, pela catraca,o seu colega vigia me viu entrar. Aproveitando um descuido do vigia e do segurança, ele pula a catraca e corre em direção ao escritório com José em seu encalço. O segurança e o vigia o alcançam. Ele tenta chegar às portas do elevador, mas José coloca as duas mãos em seus ombros com força. O homem tenta se desvincilhar, escorrega e bate a cabeça no assoalho. O choque faz com que perca os sentidos. Naquela manhã, estava escuro e foi-se clareando aos poucos. O sol começara a se propagar no quarto, pelas fendas da janela. Era segunda-feira imediatamente após o fim de semana prolongado pelo feriado. Dia de trabalho. Como por reflexo, ele tenta levantar o braço a procura do pulso para verificar as horas no relógio, é impossível, com o esforço o que sente é a agulha espetada na veia. Os braços, as pernas, estão finas e enrugadas. A cama é estreita, nas laterais há grades de ferro. Nela há um velho, alguém que sabe exatamente quem é e onde está. - Olha, ele abriu os olhos, ouve alguém dizer ao seu lado. Naquela manhã de segunda-feira pós-feriado, é inútil, a mente não comanda mais o corpo. O tempo se esgota, não há passado tão pouco futuro.

Correção

No post anterior atribuí ao caso Pimenta Neves mais morosidade à Justiça do que de fato. Corrigindo: de sua condenação à prisão, se passaram 11 e não 16 anos.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Caiu na prisão, já era.

A advogada do jornalista Pimenta Neves lamenta as condições deploráveis que seu cliente está submetido, recolhido que foi à prisão 16 anos depois de ter assassinado a jornalista Sandra Gomide e de ter sido condenado pela Justiça. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Suprema Corte daquele país determina que o Estado da Califórnia reduza o déficit de sua população carcerária em 30 mil pessoas, preocupada que está com a violação de dispositivo constitucional que proíbe tratamento desumano nas prisões. Talvez você compartilhe da idéia que bandido bom é bandido morto e defenda a pena de morte para determinados crimes, como acontece nos Estados Unidos. Em alguns casos a realidade e a exploração sensacionalista da violência nos leva a pensar dessa forma. Sob essa ótica, que se danem os que vão para a cadeia. Que apodreçam! Pimenta Neves agora com 74 anos, deve deixar a penitenciária daqui a dois anos, prevêem os seus advogados. Em nosso País tudo é mais precário, desde a justiça que demora 11 anos para cumprir uma sentença (porque o condenado tem dinheiro suficiente para pagar os melhores advogados, o que não é o caso da imensa maioria dos imputados) às condições carcerárias, piores dos que a das masmorras da idade média. Pergunto se dentro dessas condições é possível recuperar algum detento. Aqui, como nos Estados Unidos a criminalidade aumenta, assim como o número de detenções. Estima-se que o crescimento anual da população carcerária brasileira é de 8,12%, enquanto o crescimento populacional é de 1,17% ao ano. São dados que merecem ser pensados. Um considerável segmento da população acredita que as nossas prisões são “a faculdade do crime”, mesma opinião compartilhada pelos detentos, segundo pesquisa da Fundação “Professor Dr.Manoel Pedro Pimentel”, a Funap, que trabalha a reintegração do detento à sociedade por meio da educação e do trabalho. “Mais de que uma expressão fácil (a cadeia enquanto faculdade do crime), essa definição toma corpo quando deparamos com o cotidiano das prisões – superlotação e população com altíssimo grau de heterogeneidade (delito, expectativas frente à vida, perfil comportamental)”, avalia a pesquisa. Ou seja, as penitenciárias brasileiras, salvo exceções, são verdadeiros amontoados de gente, de diferentes perfis, todos juntos, com praticamente nenhuma perspectiva de reabilitação e com amplas oportunidades de aprendizado dos mais variados tipos de crime. Outra constatação da pesquisa é relativa ao trabalho educacional e laboral feito nas prisões, considerado insuficiente e ineficaz pelos próprios presos, por ser mal-remunerado, cerca de R$ 120 (em 2006) mensais no tocante ao trabalho, e irregular no que se refere às constâncias dos cursos e sua inutilidade para a vida fora dos muros da prisão. Diferente do que se queira pensar, o preso quer trabalhar, avalia a pesquisa, e sua demanda principal é por cursos técnicos que possa utilizar quando sair da prisão. Apesar de extensa e, por isso mesmo, bastante complexa, vale a pena conhecer outros dados da pesquisa

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tempo perdido

Li que a gente perde cerca de quatro anos de nossas vidas nas filas. Desconfio que seja muito mais. Você já se deu ao trabalho de calcular? A gente só se dá conta dessas coisas quando vai ao banco e dá de cara com dezenas de pessoas esperando para serem atendidas, na espera do lançamento da última novidade em tecnologia, no cinema para assistir ao filme do ano, nas repartições públicas, hospitais públicos, e privados, também. Acontece com todo mundo, em diferentes ocasiões. Comigo a mais recente foi para renovar o passaporte. Esse é o tipo de coisa que deve ser feita bem antes da viagem, de preferência ao nascer, antes mesmo de se decidir se vai ou quando irá viajar, pois parece que ultimamente todos querem escapar do país, uns temporariamente outros para sempre. Vai ver que é pra fugir das filas e de outras coisas desagradáveis que aqui acontecem. É arriscado. Vai que no país escolhido a fila é ainda pior. Por isso, prefiro ir para países mais civilizados, onde a chance de pegar fila é menor. Mas aqui... quer ver? Agora é possível agendar dia (quando tem um disponível) e horário para tirar passaporte. Beleza, não é? Com sorte, a espera pode não demorar muito. No meu caso, esperei mais de um mês para conseguir agendar atendimento. Uma vez agendado, mais de uma hora de fila além do previsto. Palmas para a organização da Polícia Federal. A chamada é pela hora de agendamento, sem tratamento especial para pessoas de idade ou para pais com crianças pequenas. Presenciei uma senhora idosa com dificuldades de locomoção aguardar na fila, em pé. Demorou um pouco, mas uma funcionária, vendo-a em apuros, conseguiu um lugar no banco de espera. A educação do povo era comparável aos dos atendentes, com ligeira vantagem para os segundos. Vamos ser justos, os funcionários foram duros, mas respeitosos. Já a senhora teve que apelar para a boa vontade das pessoas. Foi difícil. Uma senhora com uma criança pequena demorou um pouco, mas pegou a filha que estava sentada e a colocou no colo. Comparando os perfis de quem saiu para quem deveria sentar, o espaço, lógico, era insuficiente. Um casal relutou até decidir se deveria e quem cederia o lugar. O cavalheirismo sucumbiu, coube à mulher se levantar. Um outro funcionário estava determinado a fiscalizar a posição exata dos ocupantes na fila, inclusive para solicitar a um senhor para se afastar alguns centímetros de um imaginário limite que demarcava o início da fila. Sua outra tarefa era fiscalizar se os documentos estavam em ordem. Finalmente, chegou a minha vez de adentrar ao recinto onde todos seriam finalmente atendidos. A derradeira etapa foi superar mais meia dúzia de pessoas que aguardava a vez sentada em um banco. O mesmo funcionário pedia que as pessoas se espremessem no assento para dar lugar aos outros que eram enfiados no local. Depois eram chamadas uma a uma para o atendimento, impressão de digitais e tiragem de fotos. Atrás de mim, a mesma senhora, com a filha pequena e o marido, aguardava a sua vez. Outro casal, também com uma criança pequena, mas que não estava na fila, passou na frente de todos, sem que se saiba qual foi o critério usado, para surpresa do primeiro casal que teve de agüentar todo o transcurso da maratona. Confesso que pensei em ceder o meu lugar, mas, egoisticamente, recusei determinado que estava a não permanecer um segundo a mais além do que me cabia. Assim, completei mais de uma hora de espera, que podia acumular, por exemplo, para tirar uma licença de piloto de avião, se essa fosse, nessa altura da vida, a minha pretensão. Ou será que piloto também necessita de tanto esforço para tirar passaporte?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Um brasileiro na Coréia do Norte

Um amigo meu costuma me apresentar como um dos poucos brasileiros a pisar em Pyongyang, a desconhecida capital da Coréia do Norte. Muita gente se lembra da Guerra da Coréia, iniciada em 1950,cujo resultado foi a divisão das duas Coreias, a do Sul, que ficou sob influência do Ocidente, e a do Norte, do regime comunista, sob a órbita da China. Milhares de pessoas, soldados e civis, morreram no episódio que ainda hoje repercute. A partir dessa explicação rápida e simplista começo a contar como fui parar lá. Meu episódio na terra de King Il-Sung e de seu filho King Jong-Il é o típico lance do acaso. Estava preocupado em fechar as minhas páginas como editor de Internacional, do semanário Voz da Unidade, do PCB, quando toca o telefone. A redação estava vazia naquela tarde, por isso atendi a chamada pessoalmente. Era de Havana,da Embaixada norte-coreana, uma voz se identifica como representante da representação diplomática e convida uma delegação do jornal para visitar seu país. Parece coisa de trote telefônico, mas por via das dúvidas, anoto o número e repasso o que ouvi à direção do Partidão. De pronto me escalo para fazer parte da delegação. Não era trote. Os norte-coreanos achavam, não sei porque razão, que o partido poderia influenciar o governo brasileiro a estabelecer relações diplomáticas com o país deles. Completo erro de avaliação já que nossa influência perante o governo era igual a zero. Achavam que a melhor forma seria a publicação de uma reportagem sobre o país. A tiragem do Voz devia estar em torno de uns 30 mil exemplares, quase toda distribuída entre a militância. Assim mesmo, alguns dias depois providencio os meus documentos e me preparo para a viagem. Nossa delegação é composta pelo colega Alon Feuerwerker e João Aveline, diretor-responsável pelo jornal. Pouco tempo depois iniciamos nossa jornada. Embarcamos em São Paulo e fazemos escala em Lima, Peru, depois Havana, Cuba, onde recebemos os documentos necessários para entrar em Moscou, ex-URSS, nossa última escala rumo à Pyongyang, uma longa viagem, de mais de 30 horas de voo. Entramos clandestinos na Coréia do Norte, nos nossos passaportes apenas o registro de entrada em Havana. Na capital norte-coreana,visitamos escolas, bibliotecas, museus, vimos muita coisa sobre a guerra,fotos, reprodução de casamatas, a história da quase completa destruição da cidade. Admiramos as reconstruções dos originais palácios de estilo oriental e de remota época, que foram abaixo pela força das bombas, uma a cada km2, segundo nos contaram. Fomos até Panmunjon, onde está o Paralelo 38, que divide as duas coréias e onde foi assinado o armísticio,que fez cessar as hostilidades, mas não a guerra, que oficialmente continua pois não foi assinado um tratado de paz. Vimos do outro lado pelo binóculo soldados dos EUA de sentinela, confirmação da presença norte-americana na fronteira, visitamos uma gigantesca obra de engenharia feita para ganhar alguns quilômetros de terra para ampliar a área agriculturável do país, reduzida em decorrência do solo rochoso do País. Passamos por construções milenares no Interior, pontes e jardins de um das mais antigas civilizações mundiais. Foram nove dias de visita, quase que totalmente monitorada, com exceção de um passeio noturno pelo parque vizinho ao Hotel em que ficamos. Lembro-me de ver muitos civis, quase sempre com um livro na mão. Vimos também muitas estátuas do Grande Líder, como era chamado King Il-Sung, que, na época, anos 1980, ainda era vivo. Lembro-me de Aveline comentar bem baixinho: "esse pessoal é maluco, coisa de doido, de tarado" sobre o imenso trabalho de doutrinação e de culto à personalidade, que continuou com a sucessão dinástica do poder. Recordo-me de nosso interprete, um rapaz muito simpático, que aprendeu Português, em Lisboa, com o sotaque lusitano carregado explicar a razão de tanta adoração. A guerra tinha vitimado milhares de coreanos, todos homens, restaram as mulheres e uma imensa quantidade de órfãos. King Il Song construiu orfanatos e se tornou uma espécie de pai da nova geração, os filhos-sobreviventes da guerra. Um integrante do partido comunista norte-coreano reforçou a história e me mostrou um relógio que, segundo ele, foi dado aos jovens órfãos pelo próprio King Il Song. Foi assim que fui parar no outro lado do mundo, em um pequeno e hermético país oriental, que se recusa a modernizar.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Desenho do Autismo

Uma viagem. É que eu posso dizer das pinturas de Darwing Autism (Desenho do Autismo), livro disponível apenas em Inglês mas que pode ser adquirido pela internet, com imagens de obras de arte de pessoas diagnosticadas com autismo. É uma viagem sob o imaginário e a criatividade desses artistas, de amadores a artistas consagrados, e sua compreensão de vida, sentimentos que para nós nos parecem herméticos. O livro conta com descrições dos artistas sobre o que os inspirou. A autoria é do educador Jill Mullin, que reuniu os trabalhos,com introdução de Temple Grandim, personagem verídica do filme prêmio Emmy "Brilho Eterno de uma Mente Autista" (trailler acima), produzido para a TV pela HBO, e estrelado por Claire Danes, também premiada por sua atuação. O livro pode ser adquirido pela internet. Parte dos rendimentos é destinada a um trabalho de apoio e incentivo à arte de pessoas portadoras de autismo. Mais informações no Facebook.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Solidariedade à ministra que afiançou meu aluguel

Não faço parte do chamado Mundo da Cultura porque não sou produtor cultural, apesar de metido a escrever alguns contos desprentensiosos. Mas acompanho todo o debate, ou melhor dizendo, toda a tentativa de crucificar a ministra Ana de Hollanda, que conheci há muitos anos, quando compartilhamos do mesmo partido político e do mesmo local de trabalho. Eu era assessor de imprensa da Associação dos Funcionários do Banespa (Afubesp) e ela responsável pelo trabalho cultural da mesma entidade. Ana, gentilmente, foi fiadora de meu aluguel, nos tempos de penúria e baixa remuneração.Paguei direitinho o aluguel, de modo que não criei grandes problemas à minha fiadora. Na ocasião, minha mulher trabalhava na ex-Secretaria Estadual do Menor e, na época, abriram-se os arquivos da Fundação de Proteção ao Menor (Febem). O músico, compositor e escritor Chico Buarque tinha uma ficha lá, do tempo em que, aos 17 anos, resolveu com os amigos dar uma volta de carro, em São Paulo, pegou "emprestado" um na rua e foi capturado pela polícia. Minha mulher conseguiu uma cópia que entreguei à Ana que, por sua vez, a enviou ao irmão. Graças a essa gentileza,ganhamos ingressos grátis para o show de lançamento do novo disco de Chico. Segundo seu próprio depoimento, a ficha, com a sua foto, lhe serviu de inspiração para a compor a música A Foto da Capa, do disco Para Todos (sinal que alguma contribuição demos à cena cultural). Bem, essa história toda a pretexto de dizer que, ao meu ver, Ana entrou em uma barca furada ao aceitar o cargo de ministra. Me parece que ela é uma estranha no ninho do PT e, quem conhece o partido, sabe o quanto ele está cheio de cobras. Ana está sob bombardeio, resta saber quanto tempo vai aguentar tamanha pressão. À minha ex-fiadora e amiga daqueles tempos, minha solidariedade.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Justiça sem julgamento não é justiça

Sempre fui crítico da política externa norte-americana, mas reconheço que gostaria de ver praticados no Brasil alguns valores da sociedade norte-americana. Há cerca de dois anos estive em Nova York, em viagem de lazer, com a minha mulher. Fiquei admirado com o clima de civilidade da cidade, o seu caráter cosmopolita (as conversas nas ruas em vários idiomas), os museus de arte. Também visitei Washington e, entre os diversos museus, fui ao Spy Museum, onde comprei um boné com a foice e o martelo, que todos sabem é o símbolo do comunismo da ex-URSS. Só para textar a conhecida Primeira Emenda sai com ele pelas ruas de Washington DC. Não fui importunado. Tive apenas de responder a pergunta de um americano, turista como eu, em um ônibus de turismo, que questionou se eu sabia o significado do símbolo em meu boné. Tudo dentro do maior grau de civilidade. Respondi que sabia e que tinha comprado o boné em seu próprio país. E foi só. Nenhuma palavra a mais, nenhuma discussão, nenhuma hostilidade. Quer dizer, a liberdade de expressão funciona mesmo. Apesar de reconhecer esses valores discordo de outros, como muitos norte-americanos, entre os quais o jornalista Michael Kepp, que, em artigo publicado na Folha, de hoje, disse que tinha vergonha de ser americano por causa dos festejos da morte do terrorista Bin Laden. Kepp discordou das palavras do presidente Obama, para quem se fez justiça. Concordo plenamente que não pode haver justiça sem julgamento e com a morte sumária de quem quer que seja, até mesmo de um terrorista como Bin Laden. A associação com os líderes nazistas capturados e submetidos ao célebre julgamento em Nuremberg para mim é automática. Em Nova York, visitei o memorial às vítimas das Torres Gêmeas e me comovi com as milhares de pessoas que morreram, inclusive os mais de 400 policiais e bombeiros que deram suas vidas para salvar pessoas que estavam sob os escombros. Foi um crime inominável, que não merece perdão e uma atitude de grande despreendimento de pessoas como aqueles bombeiros e policiais. A minha admiração não impede de ser crítico da política externa dos Estados Unidos. Só ela explica a quantidade de ódio gerada contra os EUA, que coloca em risco os seus próprios compatriotas. Ela contradiz a tradição e a noção de justiça nos EUA, tão bem ressaltadas em alguns filmes, antes da onda dos Rambos e outros congêneres. Também não combina com tortura de prisioneiros, invasões a outros países e bombas jogadas a torto e a direito, sem distinguir civis de inimigos, a pretexto de ser o bem em combate com o mal, dicotomia mais do que furada.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ela de novo

Para a coluna Panorama Político, de O Globo, Marta Suplicy quer disputar novamente as eleições para a Prefeitura de São Paulo. Segundo a coluna, ela se considera a única em condições de derrotar José Serra em uma eventual disputa eleitoral. Sua candidatura depende do aval do ex-presidente Lula, que estaria decidido a controlar as rédeas da campanha na capital paulista.

Obama não ousaria

A coluna de Dora Kramer traz como texto secundário, porém igualmente importante, comentário sobre a hipótese que considera absurda de que a morte do terrorista Osama Bin Landen tenha sido forjada para favorecer a campanha pela reeleição de Barak Obama. Não acredito que Obama pudesse ousar a se expor tanto quanto o seu antecessor George W Bush, que justificou a invasão do Iraque baseado na mentira de que Sadan Hussein teria armas nucleares escondidas. Muita gente acreditou, durante muito tempo nessa hipótese. O mundo vem presenciando muitos absurdos ultimamente.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Microconto: "Preocupação de classe média"

-Preciso trocar o sofá da sala. Perdi dois dos meus meninos lá. Nunca mais os vi.

Misto Quente: O Viajante

Misto Quente: O Viajante: "Nesta localidade da costa se encontram três bares e não há mais nada a fazer neste calor sufocante, a não ser comparar as qualidades intrí..."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Cuba

Militantes de esquerda de minha geração sempre tiveram grande apreço por Cuba e sua revolução. Estive em Havana duas vezes nos anos 1980, em intervalos de dois a três anos. Na primeira me encantei com a Ilha, a achei parecida com uma Salvador, Bahia, revolucionária,com um povo igualmente alegre e acolhedor, uma população majoritariamente de origem africana. Na segunda vez, por ocasião do III Congresso do Partido Comunista, portanto há 25 anos, Havana estava mudada. A parte velha da cidade degradada, suas casas mal-cuidadas me deixaram melancólico, porque representavam a próprio regime em processo de deterioração. Hoje, à distância, passados tantos anos, avalio Cuba sem paixão, mas com sentimento de que devo algo aos cubanos, aos amigos que fiz e que nunca mais vi. A revolução deixou de me encantar porque não se renovou. O embargo econômico asfixou Cuba, mas a revolução não conseguiu lograr alternativas. Fidel acaba de se aposentar, nenhuma nova liderança ficou em seu lugar. Virou uma Castro dinastia, estagnou. Gorbatchov na ex-URSS queria revitalizar o socialismo propondo mudanças sem precedentes. Criou e Perestroika e a Glasnost. Não deu tempo. O sistema em processo de decomposição ruiu. Pode não haver mais tempo para Cuba.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Assim caminha a humanidade

A Europa surpreende a você, caro leitor? Positivamente ou negativamente? Ou, como eu, nunca se deu ao trabalho de pensar no assunto? A proibição do uso da burca, na França, me deu o ensejo de refletir e pensar mais sobre o segundo menor dos continentes em superfície do mundo, sua influência na civilização ocidental e suas contradições. A Europa deu grandes contribuições ao campo da arte, filosofia, cultura, política, enfim, em todos os aspectos do conhecimento humano. A França, em particular, nos brindou com a Revolução Francesa cujo grande lema é Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Católico de batismo, anticlerical por opção, considero, um retrocesso a proibição da burca, demonstração de intolerância religiosa e de prenconceito. O sensato seria abolir uma proibição, não criar uma. Alguns, talvez, possam pensar que a burca e o islamismo ameaçam a civilização cristã. Mas, na França, o seu uso é mais uma questão de opção pessoal e religiosa do que imposição. O povo europeu já passou por muitas privações e desafios, já que a Europa foi o estopim de duas guerras mundiais que resultaram em catástrofe e perda de seu hegemonismo para os Estados Unidos e para a ex-URSS. Hitler surgiu na Alemanha e Mussolini, na Itália, personificado, em tom de farsa pelo fanfarrão Berlusconi, o Maluf pornô italiano, segundo José Simão. Embora, em decadência econômica e crise, a Europa,sem dúvida, atingiu um elevado grau de civilidade, que também apresenta suas contradições. Nada que a desabone ou a glorifique. Afinal,ditadores e bufões surgem e caem em todos os cantos e continentes.








Verve literária de um jovem autor


Irreal

Por Pietro Tarantelli

Benigno se sente confuso e ofuscado. Vê Suzana estripada no chão, com o sangue brotando a jorros e lhe parece que tudo é irreal, que não foi ele que meteu dois caroços em sua ex-namorada, aqui no estacionamento do supermercado. Quem diria que toda aquela felicidade vivida por eles acabaria desse jeito, com uma carnificina absurda.
Quando a conheceu e começaram a sair juntos, mal podia acreditar na sorte que tinha.Ele, um velho de quase 60 anos beneficiando-se de uma doce e bela jovem de 37. Desde que havia se separado de sua insuportável esposa, tinham sido anos duros e tristes para Benigno. Até que apareceu naquele clube... Que mulher monumental! Foi como um sonho. Simplesmente não reconhecia a si mesmo. Era outra vez o macho de suas melhores épocas, trepando sem parar com Suzana, fazendo-a mais e mais feliz, sentindo seu corpo excitante esvaindo-se entre suspiros apaixonados. Parecia algo irreal. Mas era verdade.
Um zumbido assobia em seus ouvidos. O barulho dos disparos o deixou momentaneamente surdo. Não ouve as pessoas gritando assustadas e os carros circulando no estacionamento. Sua confusão se manifesta como uma espécie de corrente elétrica que percorre todo seu corpo e provoca um ligeiro tremor, que não lhe impede de descarregar os cartuchos utilizados contra Suzana.
Quando ela lhe disse que tudo havia terminado, assim, de repente, teve um estalo. Não demorou a descobrir a causa. Ela estava saindo com outro, um maldito filho da puta, mais jovem do que ele... 30 ou 30 e poucos. Era o fim, mulheres como Suzana, na sua idade, não iriam cair em seus encantos.
Que distantes pareciam os tempos em que ela se mostrava carinhosa e sensual, solícita aos seus pedidos. Os tempos em que irradiava essa juventude que tanto o atraía. Imaginou-a velha. Apareceram todas essas rugas e marcas que o amor dissimula. Afinal de contas, uma mulher de 37 anos não é nenhuma menina.
Agora, ela esta aí jogada no chão,em uma poça de sangue e com as tripas para fora. Rígida e flácida,como uma boneca quebrada
Alheio a tudo que o rodeia Benigno introduz dois cartuchos novos na arma enquanto se apóia na parede. Lentamente, vira a espingarda em sua própria direção, agarra com uma mão o cano duplo e com a outra começa a pressionar um dos gatilhos.
BLAM!!
Com a confusão do momento, Benigno comete o erro de não introduzir o cano em sua boca – por medo – e só consegue que o tiro acabe com seu queixo, lábios, nariz e um olho, desfigurando-lhe a cara completamente.
BLAM!!
O segundo tiro não faz nada além de insistir no erro do primeiro, arrebentando o olho bom e terminando o trabalho de destruição de sua cara, sem causar o dano suficiente para que Benigno caia sem sentidos. Apalpando o peito, comprova com surpresa que continua vivo e de pé. Ele então retira uma faca do bolso interno e reunindo forças a enfia no pulmão esquerdo com um golpe seco.
TCHACK!!
Completamente sem sentidos, Benigno toca o peito e sente a faca afundada. Não compreende porque continua vivo e de pé. Instintivamente, extrai o objeto pungente de seu corpo, banhado de sangue e novamente crava o aço, desta vez no estômago, com outro golpe seco.
TCHACK!!
Agarrando com força, Benigno revolve a lâmina da faca em seu interior e repara como suas vísceras se contraem e se dilatam, desfeitas pelo fio cortante da arma. Benigno não cai. A vida resiste em abandoná-lo. Retira outra vez a faca enquanto sente o sufocamento provocado pelo pulmão destruído. Sem forças para segurá-la, a faca cai no chão, e Benigno fica desarmado e sem poder concluir seu suicídio. Um menino olha assustado, e, ao mesmo tempo, intrigado.
- Daniel! – grita uma mulher – Sai daí!!
- Mãe... O que este senhor tem? – pergunta o jovem.
- Não olhe!! – Ordena a mãe, ainda mais assustada do que o filho.
As pessoas rodeiam o moribundo e assistem em silêncio ao espetáculo macabro. Alguém do grupo filma a cena horrível e de noite Benigno será famoso por todo o país ao aparecer nos noticiários da TV enquanto as famílias jantam em suas casas. Uma angústia gelada se apodera dos telespectadores durante alguns instantes e logo em seguida continuam engolindo seus jantares sem saber que nesta noite muitos deles terão pesadelos densos e vermelhos que irão ressecar suas gargantas e envelhecer um pouco mais seus espíritos.








sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pensando bem...

De olho nas eleições da Fifa, o atual presidente Joseph Blatter voltou atrás e elogiou o andamento das obras para a Copa do Mundo de Futebol. Mas afinal, em sua opinião, estamos ou não atrasados? Qualquer brasileiro razoavelmente bem informado, sabe que há ainda muito o que fazer e, muito provavelmente, muita coisa estará incompleta até lá. Os aeroportos sequer dão conta do movimento atual de passageiros e dos 13 que receberão reformas para ampliação, nove estão atrasados. Dos estádios, a grande dúvida é sobre qual receberá a cerimônia de abertura. Em tese, seria o de São Paulo, que ainda nem saiu do papel. Os mais adiantados estão em fase de demolição. Hoje, no carro, pela manhã, ouvi na Band News, que a nossa tradição não é de planejamento, mas de improvisação. A Copa do Mundo vai acontecer no Brasil, de qualquer maneira. Se o Plano A falhar aciona-se o Plano B,se faltar vaga em hotel, hospeda-se os turistas em transatlânticos no Litoral,se os meios de transporte são insuficientes se complementa com um sistema alternativo e assim por diante. O importante é a empolgação do brasileiro e sua capacidade de adaptação. Será?
E tem gente que ainda reclama quando alguém critica.









quarta-feira, 13 de abril de 2011

Adeus às armas

Sou contra as armas, mas não sou a favor de um novo plebiscito sobre a proibição de sua comercialização legal, por considerá-lo extratemporâneo e proposto ao calor do massacre na escola pública, no Bairro do Realengo, Rio de Janeiro. O povo já se manifestou a respeito em referendo. Lembro que havia um clamor da sociedade organizada a favor da proibição. Ganhou o voto da maioria silenciosa, contrária à medida. Defendo um maior rigor ao comércio clandestino de armas, esse, sim, o maior problema, ao lado da fiscalização precária nas fronteiras. Sou a favor de campanhas públicas sobre o desarmamento, a partir das próprias escolas, como a campanha, noticiada pela imprensa nesta quarta-feira, em que crianças da periferia de São Paulo são estimuladas a trocar armas de brinquedo por gibis. Não seria legal ver os adultos trocando suas armas por livros? Também seria o máximo o governo e a sociedade cuidando dos problemas mentais das pessoas como se deve. O problema é tão grave quanto o tratamento dado aos presos nas penitenciárias, sem nenhuma chance de reabilitação dos detentos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Rio Doce - A Espantosa Evolução de um Vale

Confira a apresentação do novo livro do escritor e jornalista Marco Antônio Coelho.


RIO DOCE - A ESPANTOSA EVOLUÇÃO DE UM VALE

A elaboração deste livro muito deve a Washington Novais, incansável batalhador em favor de duas causas básicas – a luta contra os que aplaudem ou ficam omissos diante dos atentados contra a Natureza e a defesa intransigente das comunidades indígenas no Brasil.

SUMÁRIO :
Apresentação
1 – “As áreas proibidas” de Minas Gerais
2 – O genocídio dos índios
3 – O destino do vale
4 – A briga pelo aço
5 – A trajetória e os desafios da CVRD
6 – A gravidade das questões ambientais

Anexos – Resgate dos “botocudos” entrevista com Ailton Krenak

Síntese do livro de José Galizia Tundisi e Y. Saijo sobre os lagos no vale do rio Doce
Apresentação


Algumas razões levaram-me a dedicar a este livro quatro anos de pesquisa, viagens e consultas a diversas pessoas em Belo Horizonte e no interior de Minas. Após haver estudado a situação do rio das Velhas e a divergência em torno da chamada transposição do Velho Chico fiquei surpreso com o pouco conhecimento, em Minas Gerais e no país, a respeito da realidade do vale e do rio Doce.
Particularmente fiquei abismado com a marginalização desses “sertões do leste”, parecendo injustificável o fato de os colonizadores portugueses não o devassarem durante três séculos, enquanto as lonjuras da província e do oeste brasileiro eram vencidas pelos exploradores, que chegaram até a orla do Pacífico e aos grandes rios da Amazônia.
Outras vastidões das Minas Gerais, como as alterosas e os cerrados, desde o século XVI estiveram debaixo da mira dos bandeirantes, autoridades e historiadores. O mesmo sucedeu com a região central das minas, onde estavam as jazidas de minérios, no aluvião dos córregos ou nos barrancos dos rios. Minerações que fixaram na área central da província a maior população das Américas no século XVIII, onde houve o vertiginoso processo da busca de ouro, principalmente em Vila Rica, Mariana, Caeté, Sabará, Santa Bárbara, Serro Frio e da frenética cata de pedras preciosas em Diamantina.
Durante décadas os que penetravam nas terras de Santa Cruz voltaram seus olhos para a imensidão das veredas no vale do São Francisco, mesmo porque foi impositivo o uso do grande rio para efetivar a ligação com a Bahia e o nordeste brasileiro. Da mesma forma, mas numa fase posterior, começou a ocupação da Zona da Mata onde a cafeicultura implantou-se nos morros com enorme êxito, impondo a necessidade da montagem da extensa rede da Leopoldina Railway.
Também houve inegável dinamismo no sul do estado, onde, além da produção de café, obteve sucesso a fabricação de queijo para abastecer São Paulo e o Rio de Janeiro, a capital da colônia. O Triângulo e o oeste de Minas jamais foram esquecidos, pois eram os caminhos para Mato Grosso e Goiás e porque em suas pastagens foi implantada a pecuária, fundada no empenho dos fazendeiros em aclimatar no Brasil o gado zebuíno.
Em sendo assim, a única região de Minas que ficou esquecida foi exatamente a encravada entre a Zona da Mata e o maciço do Espinhaço. Assim, aguçou minha curiosidade saber as razões do atraso secular na devassa do vale do rio Doce.
Logo sobressaiu a relevância das ordens expressas da Coroa portuguesa proibindo a abertura de vias ligando a região das minas ao litoral do Espírito Santo, inclusive a navegação pelo Doce. Todavia, esse óbice legal não impediria o surgimento de descaminhos se não fosse respaldado por outros fatores, entre os quais as características negativas do rio que procedia da região das minas. Porque suas águas, embora caudalosas, são repletas de cachoeiras e corredeiras, tornando impossível sua utilização como via navegável, ao contrário do sucedido nas bacias dos rios da Prata e da Amazônia.
Outros dados colaboraram para ser respeitada a decisão de Lisboa de impedir o trânsito por esse vale. A Mata Atlântica era um obstáculo formidável numa época em que eram precários os instrumentos para derrubar uma floresta cerrada e inóspita. Acrescente-se ainda que pestes imperavam nas regiões ribeirinhas pantanosas do Doce. E os intrusos não sabiam o que fazer para não serem dizimados.
Outro fator afastava os que desejavam ir de Vitória até as minas: as histórias fantasiosas sobre os índios, classificados como “botocudos”. Tidos como terríveis antropófagos, inclusive por serem adversários de tribos sediadas na orla marítima, que amistosamente receberam os europeus no século XVI.
Somente quando o maior contingente demográfico no Brasil daquela época entendeu que a mineração se esgotara é que teve início a corrente migratória para a Zona da Mata e, posteriormente, para a bacia do Doce. Fluxo que ganhou velocidade no declínio do século XVIII, mudando o perfil econômico e político da província. Processo consolidado quando, no fim do século XIX, houve a transferência da capital de Minas, com a construção de Belo Horizonte.
Comecei a tomar conhecimento dessa evolução de Minas Gerais com o que sucedia com um ramo da minha família. De longa data meus antepassados provinham da região do Alto rio Doce e do Serro Frio. Dezenas de parentes (inclusive alguns tios-avós) se transferiram de Guanhães e Virginópolis para a antiga Figueira do Rio Doce, hoje Governador Valadares.
A opção por esta cidade não decorreu de um acaso. Derivou de contar com duas inestimáveis vantagens – a ferrovia Vitória a Minas, que ali chegara em 1910, e a abertura de uma rodovia federal – Rio-Bahia - com a construção naquela cidade da ponte sobre o Doce.
Meu interesse por esse tema se aguçou também por um dado extremamente relevante. A partir da segunda metade do século passado o vale do Doce tornou-se o centro da vida econômica de Minas Gerais, devido ao papel desempenhado nessa região por empresas mundialmente poderosas – a Cia. Vale do Rio Doce, a Usiminas e a grande usina da Belgo-Mineira (hoje de propriedade da ArcelorMittal). Grupos econômicos que arrastaram para a região inúmeras empresas importantes.
Ademais, desde o início da década de vinte teve início a vertiginosa corrida para derrubar a Mata Atlântica. Na região foram instaladas inúmeras serrarias e Vitória firmou-se como o maior porto mundial de exportação de madeira. (Um fator hoje desempenhado por Belém do Pará e Manaus.)
Igualmente fortaleceu o meu empenho em descortinar a situação mais detidamente do quadro do vale deste rio uma recente análise do professor Paulo R. Haddad. Mostrou como Minas Gerais é uma realidade assimétrica diferente daquela propalada até décadas atrás, quando, a grosso modo dividia-se Minas em duas partes – os municípios localizados no norte de Minas – acima do paralelo 19 - especialmente nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri, que eram a parcela atrasada ou estagnada, em contraste com o progresso e o desenvolvimento do restante do território mineiro.
Para Haddad, a “nova geografia econômica de Minas Gerais mostra esses municípios economicamente deprimidos se espraiando também para quatro microregiões do vale do Rio Doce e para algumas subáreas da zona da mata.” ( “O Estado de S. Paulo, 5/8/10). Para ele, temos agora, cerca de 200 municípios, situados agora à direita da BR -040 na direção Rio-Brasília, que têm como características sócio-econômicas: baixas taxas de crescimento econômico; insuficiência de absorção de mão de obra, elevados índices de pobreza e de carências sociais, fortes desequilíbrios sócioeconômicos e intrarregionais; infra-estrutura econômica e social em precárias condições de uso; e elevado grau de dependência de transferências do governo federal, tanto para os residentes quanto para as prefeituras.
Formulando uma comparação, Haddad afirma que uma pessoa, viajando do Rio de Janeiro para Brasília, olhando para sua direita, viria uma Minas com o retrato socioeconômico do Nordeste brasileiro e, para a sua esquerda, uma Minas com o retrato da próspera economia do interior de São Paulo. E conclui, observando uma diagonal, saindo da zona da mata, dividindo o mapa do Estado numa dualidade espacial básica, encontraria não mais uma questão Norte-Sul. Apenas constataria a assimetria de Minas Gerais.
Mas o que acentua ainda mais a assimetria do estado montanhês é a evolução extraordinária do vale do rio Doce, a região que ficou abandonada durante três séculos e que nos últimos decênios assumiu a posição de absoluta liderança do progresso das alterosas.
Ao lado disso, para mim foi uma descoberta conhecer fatos históricos fundamentais sobre esses “sertões”, situados na parte leste da província, território durante muito tempo qualificado como “ área proibida” de Minas. E era prazerosa a oportunidade de retransmitir essas velhas histórias a pessoas que nunca tiveram maiores informações sobre o notável trabalho de certas personalidades relacionadas com a ocupação do vale.
Entre elas, destaca-se a trajetória de dois franceses. Um deles, Guido Thomaz Marlière, um ex-militar francês dedicado à missão de sustar o massacre de índios e estabelecer com eles laços de cooperação. O outro francês foi Jean Antoine Felix de Monlevade. Após estudar os recursos minerais existentes no Brasil, esse engenheiro empenhou-se na montagem de uma usina da Belgo-Mineira, uma siderurgia de elevado porte nas margens do Piracicaba, um afluente do Doce.
Na medida em que comecei a estudar os dados sobre o que sucedera nos “sertões do leste” de Minas Gerais foi se desvendando para mim uma falácia incrivelmente repetida na historiografia mineira - a absurda campanha contra os chamados “botocudos”. Campanha absurda impulsionada pelos colonizadores a fim se apossarem de uma imensa parcela do território, ocupada por uma densa floresta e que nela certamente seriam encontradas imensa riquezas minerais.
Para tanto, os nativos que ali viviam foram apresentados pelas autoridades coloniais como terríveis antropófagos que precisavam ser liminarmente exterminados. Calúnia propagada por aqueles que desejavam derrubar a Mata Atlântica, a fim de exportar madeira e com isso abrirem caminho para implantar pastagens e lavouras de café, milho e outros produtos.
Calúnia refutada por ilustres visitantes estrangeiros que estiveram na região no século XIX, entre os quais Saint-Hilaire e o sábio príncipe Maximiliano de Neuwied, conforme registraram em seus livros, além de Guido T. Marlière. E este deu uma palavra decisiva sobre tal aleivosia afirmando que a belicosidade dos chamados “botocudos” era uma resposta às hordas de invasores que pretendiam exterminá-los. Por isso entendi como um dever refutar no meu livro a versão falsa, insistentemente apresentada na historiografia mineira.
Ressalto também que meu interesse em debater a problemática tratada nesse livro derivou também de outro dado: cultivei desde os anos cinqüenta a causa da defesa das riquezas minerais de Minas Gerais e do progresso econômico e social da província. Com várias personalidades mineiras, participei nessa causa ao lado de pessoas, como Ozório da Rocha Diniz, Gabriel Passos, José Costa, Renato Falci, Fabrício Soares, José Israel Vargas, Mauro Santayana, Guy de Almeida, Benito Barreto, José Maria Rabelo, Carlos Olavo da Cunha Pereira, Edmur Fonseca, Roberto Costa, Washington Albino, Fernando Correa Dias e Helvécio de Oliveira Lima.
Ademais, meu comprometimento com essa temática foi possível porque em Minas Gerais foi montada, com seriedade e persistência, uma estrutura governamental e acadêmica de pesquisa dos grandes problemas relacionados com a economia e as questões ambientais. Cabe aqui mencionar expressamente a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, sob a direção de José Carlos de Carvalho. Atividade respaldada por entidades como a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, pela Fundação João Pinheiro, entre outras.
Os dados e as opiniões apresentadas neste livro resultam especialmente da leitura de alguns trabalhos básicos elaborados por autores que documentaram com extrema seriedade aspectos básicos da realidade mineira. Começo por destacar o livro de Dermeval José Pimenta – “A Vale do Rio Doce & Sua História”, obra clássica para o conhecimento das origens da empresa e dos primeiros anos de sua existência.
Em torno da temática do rio Doce recebi o apoio valioso da Universidade do Vale do Rio Doce (UNIVALE), empreendimento resultante da visão e do empenho de uma personalidade excepcional, meu primo Antônio Rodrigues Coelho. Entendeu ele que uma instituição acadêmica seria o ponto de apoio decisivo para erguer a região das minas ao nível das atividades culturais realizadas na capital mineira. Com uma prova disso aí está “Sertão do Rio Doce”, de Haruf Salmen Espindola, obra basilar na exposição deste livro.
Naturalmente, apoiei-me em trabalhos clássicos sobre a evolução de Minas Gerais, como os de Francisco Iglesias (meu velho amigo), Octavio Dulci e Clelio Campolina, entre outros. Ressalto que também me fundamentei em dois trabalhos acadêmicos, poucos conhecidos do grande público. O primeiro foi uma tese, aprovada na USP, de Marta Zorzal e Silva, em 2001, quando recebeu o título de doutora em Ciência Política. O segundo foi a dissertação de Izabel Missaglia de Mattos, apresentada em 1995, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, para a obtenção do título de Mestre em Sociologia.
É indispensável ainda mencionar a colaboração indispensável nos contatos mantidos com Ailton Krenack, quando transmitiu-me dados preciosos a respeito do passado e do presente dos krenack e de outras comunidades nativas. E devo esse contato à minha prima Eliane Andrés, que me advertiu para a importância da atividade desse cacique entre as comunidades de nativos no Brasil.
Registro o apoio recebido de diretores e funcionários do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Graças a essa inestimável ajuda consegui o acesso a livros e teses dessa instituição e a obtenção constante de indispensáveis cópias dos trabalhos, tão logo saíam de meu computador. Muito devo, portanto, à colaboração de meus colegas nesse instituto. Determinadas pesquisas foram possíveis graças à colaboração de Caio Márcio Coelho Batista, meu sobrinho e afilhado, que me estimulava a fazer repetidas viagens pilotadas por ele em seu automóvel, com carinho e esmero, aliado a informações preciosas que me transmitia, por haver trabalhado durante anos em afazeres no vale.
Por tudo isso, tenho a dizer que este livro é um mutirão no velho estilo mineiro, onde muitos trazem um prato de comida para matar a fome dos que colaboram para o êxito de um evento, por se tratar de uma oportunidade para relembrar belas histórias do passado, que não devem ser esquecidas, assim como catilinárias antigas que não devem ser olvidadas.
São Paulo, março-abril de 2011.

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas com o seu autor.

macoelho@that.com.br

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