segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tempo perdido

Li que a gente perde cerca de quatro anos de nossas vidas nas filas. Desconfio que seja muito mais. Você já se deu ao trabalho de calcular? A gente só se dá conta dessas coisas quando vai ao banco e dá de cara com dezenas de pessoas esperando para serem atendidas, na espera do lançamento da última novidade em tecnologia, no cinema para assistir ao filme do ano, nas repartições públicas, hospitais públicos, e privados, também. Acontece com todo mundo, em diferentes ocasiões. Comigo a mais recente foi para renovar o passaporte. Esse é o tipo de coisa que deve ser feita bem antes da viagem, de preferência ao nascer, antes mesmo de se decidir se vai ou quando irá viajar, pois parece que ultimamente todos querem escapar do país, uns temporariamente outros para sempre. Vai ver que é pra fugir das filas e de outras coisas desagradáveis que aqui acontecem. É arriscado. Vai que no país escolhido a fila é ainda pior. Por isso, prefiro ir para países mais civilizados, onde a chance de pegar fila é menor. Mas aqui... quer ver? Agora é possível agendar dia (quando tem um disponível) e horário para tirar passaporte. Beleza, não é? Com sorte, a espera pode não demorar muito. No meu caso, esperei mais de um mês para conseguir agendar atendimento. Uma vez agendado, mais de uma hora de fila além do previsto. Palmas para a organização da Polícia Federal. A chamada é pela hora de agendamento, sem tratamento especial para pessoas de idade ou para pais com crianças pequenas. Presenciei uma senhora idosa com dificuldades de locomoção aguardar na fila, em pé. Demorou um pouco, mas uma funcionária, vendo-a em apuros, conseguiu um lugar no banco de espera. A educação do povo era comparável aos dos atendentes, com ligeira vantagem para os segundos. Vamos ser justos, os funcionários foram duros, mas respeitosos. Já a senhora teve que apelar para a boa vontade das pessoas. Foi difícil. Uma senhora com uma criança pequena demorou um pouco, mas pegou a filha que estava sentada e a colocou no colo. Comparando os perfis de quem saiu para quem deveria sentar, o espaço, lógico, era insuficiente. Um casal relutou até decidir se deveria e quem cederia o lugar. O cavalheirismo sucumbiu, coube à mulher se levantar. Um outro funcionário estava determinado a fiscalizar a posição exata dos ocupantes na fila, inclusive para solicitar a um senhor para se afastar alguns centímetros de um imaginário limite que demarcava o início da fila. Sua outra tarefa era fiscalizar se os documentos estavam em ordem. Finalmente, chegou a minha vez de adentrar ao recinto onde todos seriam finalmente atendidos. A derradeira etapa foi superar mais meia dúzia de pessoas que aguardava a vez sentada em um banco. O mesmo funcionário pedia que as pessoas se espremessem no assento para dar lugar aos outros que eram enfiados no local. Depois eram chamadas uma a uma para o atendimento, impressão de digitais e tiragem de fotos. Atrás de mim, a mesma senhora, com a filha pequena e o marido, aguardava a sua vez. Outro casal, também com uma criança pequena, mas que não estava na fila, passou na frente de todos, sem que se saiba qual foi o critério usado, para surpresa do primeiro casal que teve de agüentar todo o transcurso da maratona. Confesso que pensei em ceder o meu lugar, mas, egoisticamente, recusei determinado que estava a não permanecer um segundo a mais além do que me cabia. Assim, completei mais de uma hora de espera, que podia acumular, por exemplo, para tirar uma licença de piloto de avião, se essa fosse, nessa altura da vida, a minha pretensão. Ou será que piloto também necessita de tanto esforço para tirar passaporte?

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