segunda-feira, 9 de maio de 2011

Justiça sem julgamento não é justiça

Sempre fui crítico da política externa norte-americana, mas reconheço que gostaria de ver praticados no Brasil alguns valores da sociedade norte-americana. Há cerca de dois anos estive em Nova York, em viagem de lazer, com a minha mulher. Fiquei admirado com o clima de civilidade da cidade, o seu caráter cosmopolita (as conversas nas ruas em vários idiomas), os museus de arte. Também visitei Washington e, entre os diversos museus, fui ao Spy Museum, onde comprei um boné com a foice e o martelo, que todos sabem é o símbolo do comunismo da ex-URSS. Só para textar a conhecida Primeira Emenda sai com ele pelas ruas de Washington DC. Não fui importunado. Tive apenas de responder a pergunta de um americano, turista como eu, em um ônibus de turismo, que questionou se eu sabia o significado do símbolo em meu boné. Tudo dentro do maior grau de civilidade. Respondi que sabia e que tinha comprado o boné em seu próprio país. E foi só. Nenhuma palavra a mais, nenhuma discussão, nenhuma hostilidade. Quer dizer, a liberdade de expressão funciona mesmo. Apesar de reconhecer esses valores discordo de outros, como muitos norte-americanos, entre os quais o jornalista Michael Kepp, que, em artigo publicado na Folha, de hoje, disse que tinha vergonha de ser americano por causa dos festejos da morte do terrorista Bin Laden. Kepp discordou das palavras do presidente Obama, para quem se fez justiça. Concordo plenamente que não pode haver justiça sem julgamento e com a morte sumária de quem quer que seja, até mesmo de um terrorista como Bin Laden. A associação com os líderes nazistas capturados e submetidos ao célebre julgamento em Nuremberg para mim é automática. Em Nova York, visitei o memorial às vítimas das Torres Gêmeas e me comovi com as milhares de pessoas que morreram, inclusive os mais de 400 policiais e bombeiros que deram suas vidas para salvar pessoas que estavam sob os escombros. Foi um crime inominável, que não merece perdão e uma atitude de grande despreendimento de pessoas como aqueles bombeiros e policiais. A minha admiração não impede de ser crítico da política externa dos Estados Unidos. Só ela explica a quantidade de ódio gerada contra os EUA, que coloca em risco os seus próprios compatriotas. Ela contradiz a tradição e a noção de justiça nos EUA, tão bem ressaltadas em alguns filmes, antes da onda dos Rambos e outros congêneres. Também não combina com tortura de prisioneiros, invasões a outros países e bombas jogadas a torto e a direito, sem distinguir civis de inimigos, a pretexto de ser o bem em combate com o mal, dicotomia mais do que furada.

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