segunda-feira, 16 de maio de 2011

Um brasileiro na Coréia do Norte

Um amigo meu costuma me apresentar como um dos poucos brasileiros a pisar em Pyongyang, a desconhecida capital da Coréia do Norte. Muita gente se lembra da Guerra da Coréia, iniciada em 1950,cujo resultado foi a divisão das duas Coreias, a do Sul, que ficou sob influência do Ocidente, e a do Norte, do regime comunista, sob a órbita da China. Milhares de pessoas, soldados e civis, morreram no episódio que ainda hoje repercute. A partir dessa explicação rápida e simplista começo a contar como fui parar lá. Meu episódio na terra de King Il-Sung e de seu filho King Jong-Il é o típico lance do acaso. Estava preocupado em fechar as minhas páginas como editor de Internacional, do semanário Voz da Unidade, do PCB, quando toca o telefone. A redação estava vazia naquela tarde, por isso atendi a chamada pessoalmente. Era de Havana,da Embaixada norte-coreana, uma voz se identifica como representante da representação diplomática e convida uma delegação do jornal para visitar seu país. Parece coisa de trote telefônico, mas por via das dúvidas, anoto o número e repasso o que ouvi à direção do Partidão. De pronto me escalo para fazer parte da delegação. Não era trote. Os norte-coreanos achavam, não sei porque razão, que o partido poderia influenciar o governo brasileiro a estabelecer relações diplomáticas com o país deles. Completo erro de avaliação já que nossa influência perante o governo era igual a zero. Achavam que a melhor forma seria a publicação de uma reportagem sobre o país. A tiragem do Voz devia estar em torno de uns 30 mil exemplares, quase toda distribuída entre a militância. Assim mesmo, alguns dias depois providencio os meus documentos e me preparo para a viagem. Nossa delegação é composta pelo colega Alon Feuerwerker e João Aveline, diretor-responsável pelo jornal. Pouco tempo depois iniciamos nossa jornada. Embarcamos em São Paulo e fazemos escala em Lima, Peru, depois Havana, Cuba, onde recebemos os documentos necessários para entrar em Moscou, ex-URSS, nossa última escala rumo à Pyongyang, uma longa viagem, de mais de 30 horas de voo. Entramos clandestinos na Coréia do Norte, nos nossos passaportes apenas o registro de entrada em Havana. Na capital norte-coreana,visitamos escolas, bibliotecas, museus, vimos muita coisa sobre a guerra,fotos, reprodução de casamatas, a história da quase completa destruição da cidade. Admiramos as reconstruções dos originais palácios de estilo oriental e de remota época, que foram abaixo pela força das bombas, uma a cada km2, segundo nos contaram. Fomos até Panmunjon, onde está o Paralelo 38, que divide as duas coréias e onde foi assinado o armísticio,que fez cessar as hostilidades, mas não a guerra, que oficialmente continua pois não foi assinado um tratado de paz. Vimos do outro lado pelo binóculo soldados dos EUA de sentinela, confirmação da presença norte-americana na fronteira, visitamos uma gigantesca obra de engenharia feita para ganhar alguns quilômetros de terra para ampliar a área agriculturável do país, reduzida em decorrência do solo rochoso do País. Passamos por construções milenares no Interior, pontes e jardins de um das mais antigas civilizações mundiais. Foram nove dias de visita, quase que totalmente monitorada, com exceção de um passeio noturno pelo parque vizinho ao Hotel em que ficamos. Lembro-me de ver muitos civis, quase sempre com um livro na mão. Vimos também muitas estátuas do Grande Líder, como era chamado King Il-Sung, que, na época, anos 1980, ainda era vivo. Lembro-me de Aveline comentar bem baixinho: "esse pessoal é maluco, coisa de doido, de tarado" sobre o imenso trabalho de doutrinação e de culto à personalidade, que continuou com a sucessão dinástica do poder. Recordo-me de nosso interprete, um rapaz muito simpático, que aprendeu Português, em Lisboa, com o sotaque lusitano carregado explicar a razão de tanta adoração. A guerra tinha vitimado milhares de coreanos, todos homens, restaram as mulheres e uma imensa quantidade de órfãos. King Il Song construiu orfanatos e se tornou uma espécie de pai da nova geração, os filhos-sobreviventes da guerra. Um integrante do partido comunista norte-coreano reforçou a história e me mostrou um relógio que, segundo ele, foi dado aos jovens órfãos pelo próprio King Il Song. Foi assim que fui parar no outro lado do mundo, em um pequeno e hermético país oriental, que se recusa a modernizar.

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