quarta-feira, 15 de junho de 2016

Ficção e realidade




A terça-feira, 14 de junho, teve um final de tarde movimentado. Primeiro com a aprovação do relatório que recomenda a cassação do deputado e presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, por ter mentido aos seus pares ao afirmar que não tinha contas no exterior. Seguida da decisão do ministro do STF Teori Zavaschi que recusou o pedido  do procurador geral da República, Rodrigo Janot, de prisão dos senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, e do ex-presidente José Sarney. E, finalmente, com o despacho do juiz Augusto César Pansini, de Curitiba, de bloqueio dos bens de Cunha e de sua mulher, Cláudia Cruz e quebra de sigilo fiscal do deputado.
No futebol, Dunga foi demitido da seleção brasileira após a vexatória derrota para a seleção do Peru e a sua consequente desclassificação da Copa América.
Invadindo a madrugada da quarta-feira, às 24h30, o canal de TV por assinatura Globo News transmitiu a entrevista do cineasta e dramaturgo Jorge Furtado ao programa Ofício em Cena.
Seguindo o formato de entrevistas com atores, diretores e outros profissionais ligados ao cinema, televisão e teatro, considero o Ofício em Cena um bom programa para quem pretende seguir carreira ou simplesmente se interessa pelas três formas de manifestação artística.
Cinema e teatro procuram retratar aspectos da realidade buscando pela força da narrativa, criatividade e técnica despertar a emoção do expectador.
Furtado falou sobre o seu processo de criação, de como recontar uma história de várias maneiras até chegar à definitiva versão.
Disse que optou por ser diretor para que os seus roteiros fosse seguidos à risca e que o roteiro é uma produção coletiva. O texto, afirma, deve ser lido em voz alta, mesmo que o seu vizinho pense que o escritor é louco ou fala sozinho. Furtado defende que qualquer texto depois de escrito deve ser lido assim, seja um ensaio, poesia ou romance.
Para ele, fatores externos podem alterar o roteiro, a chuva que cai, o cachorro que late durante a filmagem e que não estão previstos no roteiro, são alguns exemplos. Para os que desejam seguir carreira como roteiristas, Jorge Furtado disse que é preciso ser honesto e colocar no papel as experiências vividas.
Citou o exemplo de uma dona de casa que escreveu um roteiro baseado em sua frasqueira e de outro aluno que imaginou uma cena ao estilo dos filmes norte-americanos de gangster com dois revólveres na mão. Entre um e outro, o roteiro da dona de casa é mais honesto. Na televisão,ele procura entregar mais do que o mesmo ao expectador por meio da releitura dos clássicos, como Shakespeare ou a Commedia dell'arte, forma de teatro de improviso, cujas origens remontam ao Século XV e que retratam cenas do cotidiano.
Fico pensando se Furtado imaginaria um roteiro baseado na atuação da Tia Eron citando Platão e Umberto Eco de uma só tacada durante a sessão da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, para justificar o motivo de sua ausência na última sessão e a sua decisão final pela cassação de Cunha. Ou uma cena representando o deputado Wladimir Costa  defendendo Cunha a sessão inteira e no final votando pela sua cassação.

O cinema pode brincar com a realidade e a fantasia. Mas na maioria das vezes não consegue superar a vida real em surpresa e fascinação.

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