segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Falta muito para esse país se tornar uma nação


Fico sabendo pelos jornais sobre um movimento contra os maus tratos aos animais. Tudo bem que as pessoas se preocupem com essa questão. É um absurdo maltratar cachorros, gatos e demais animais de estimação. Mas existe gente que vive bem pior do que os animais.
Estou falando da população carcerária, mas poderia me referir aos sem-teto ou aos milhões de brasileiros que moram em favelas ou moradias precárias nas áreas de risco que sempre sucumbem nas intempéries, verdadeira síndrome da tragédia anunciada.
Quem se indigna com esse estado de coisas se elas vão se tornando comuns, se há impunidade, se os assuntos são tratados com uma aparente normalidade, como se fossem parte do inevitável?
Acaba se tornando caldo de cultura para reações inesperadas e explosivas, individuais ou coletivas, psiquicamente desordenadas. Lembro-me do excelente “Ovo da Serpente” direção e roteiro de Ingmar Bergman,que me causou profundo impacto quando foi lançado (1977),e que passou recentemente na TV à cabo. Ele retrata o período pré-Hitler, na Alemanha.
Inflação, fome, desprezo pela condição humana levaram milhares de alemães a endeusarem um maluco, parte de um delírio coletivo que levou aos cidadãos a apoiarem planos de levar o país ao domínio do mundo, ao exacerbo da raça ariana e a justificação do genocídio de milhares de judeus.
Sei que uma coisa não exclui a outra. Assim como é necessário ter quem se preocupa com os direitos dos animais é preciso mais atenção com os direitos dos cidadãos. O problema é que existem cidadãos de primeira classe, cidadãos de segunda e de terceira e os não-cidadãos.
A população carcerária é em sua maioria de excluídos, assim como os dependentes de crack. São pessoas que cometeram erros, mas também a quem a sociedade nega os direitos mínimos de recuperação, de reintegração.
Gerações foram comprometidas, são os filhos de famílias desestruturadas, que vivem nas ruas. Os meninos viraram adultos e substituíram a cola de sapateiro pelo crack que, digamos assim, é a mais “democrática” e acessível das drogas.
É comum criticarem a “turma dos direitos humanos”, mais “preocupada” em defender “os direitos dos bandidos”.
Mas se não nos preocuparmos com os direitos básicos dos cidadãos,de todos eles, sejam em que condição estejam, estaremos perpetuando a desigualdade e continuaremos a tratar humanos como animais, negando-lhes qualquer chance de recuperação. Pessoas que vão reagir da forma como são tratados, com violência.
Os muros altos que construímos já não nos protegem.
O avanço e o progresso econômico com justiça social é o caminho que consolidou as nações desenvolvidas. Elas conseguiram equacionar a questão da desigualdade ao evoluírem como sociedade. Superaram as dificuldades ao garantirem direitos básicos, como moradia, educação e saúde. Asseguraram o predomínio da lei, do direito público sobre o privado.
Quero dizer que é possível superarmos essa condição. Mas primeiro é necessário derrubar barreiras, demolir os muros que nos separam.

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